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Médico de Joinville fala sobre o trabalho no centro de triagem da Covid-19

Infectologista precisou se afastar dos pais que estão no grupo de risco

Médico de Joinville fala sobre o trabalho no centro de triagem da Covid-19

Infectologista precisou se afastar dos pais que estão no grupo de risco

Fernanda Silva

Os cuidados que as pessoas começaram a tomar com início da pandemia de coronavírus, como usar máscaras, higienizar as mãos com frequência e colocar as roupas para lavar assim que chegam em casa já eram rotina para o médico infectologista Luiz Henrique de Melo. Porém, mesmos os profissionais da saúde tiveram que se adaptar a uma nova realidade.

Melo precisou se afastar dos pais, que com mais de 80 anos, fazem parte do grupo de risco para a Covid-19. Contatos apenas por telefone.

O infectologista, formado em medicina há 35 anos, é o coordenador técnico do Centro de Triagem, localizado na Associação Atlética da Tupy, criado para atender exclusivamente pacientes com suspeita de Covid-19 desde 30 de março.

Melo fala que sentiu ser sua obrigação aceitar o convite e coordenar a parte médica do local.

“A formação médica e o enfrentamento de epidemias fazem parte da vida de um infectologista. Se eu fui treinado pra isso, não é correto na hora que precisam de mim, eu ficar em casa trancada por medo de pegar a doença.”

Ele é um dos 30 profissionais que atuam diretamente no centro de triagem, montado pelo comitê de crise da Associação Empresarial de Joinville (Acij), com apoio da Tupy e parceria da prefeitura. Entre eles estão estudantes de medicina, enfermagem, fisioterapia e trabalhadores da limpeza.

No local, todos usam máscaras, face shield, luvas e aventais, que são descartados a cada atendimento, assim como equipamentos e mesas são higienizados.

“A convivência com a situação faz a gente moldar um pouco a nossa forma de encarar” explica Melo. Para ele, quem está distante pode aumentar ou minimizar a situação. “Eu acho que o ideal é você seguir a realidade, seguir as recomendações de quem está enfrentando isso de uma forma mais efetiva”, completa.

Acij/Divulgação

Segundo o médico, o número de casos confirmados da doença vai variar de acordo com as medidas vigentes. Até o momento, opina Melo, os cuidados foram tomados no tempo certo, evitando que muitas pessoas se infectassem ao mesmo tempo, o que poderia sobrecarregar o sistema de saúde e prejudicar os atendimentos.

Ele conta que vê a insatisfação das pessoas em relação ao isolamento, mas afirma que se há um controle dos casos e as pessoas estão sendo atendidas, foi por causa dessas medidas de prevenção.

“A gente sabe como ressuscitar a economia, nós não sabemos ainda como ressuscitar as pessoas mortas”, comenta. Para ele, a opção pela vida deve ser preferencial, mas sem tirar o olho dos efeitos colaterais.

Para o médico, quando o número de casos aumentar, as pessoas vão perceber como a doença já está próxima. “Quando alguém que você conhece fica doente ou morre. Hoje, em Joinville, parece estar distante ainda”, afirma Melo.

O infectologista explica que o coronavírus tem alto índice de contágio. Uma pessoa com coronavírus pode transmitir a doenças para outras duas ou três. É por isso que Melo precisou se afastar dos pais. “Então, me cuidando, estou cuidando deles. Isso é uma questão de responsabilidade.”

Com as novas regras e liberação de algumas áreas, será necessário observar como a população reage e as consequências disso. “Se começarmos a ver que estamos perdendo o controle, que se puxe o freio de mão de novo”, defende o médico.

A estratégia de combate a doença, segundo Melo, é a contingência da contaminação. Logo depois da descoberta da doença, em 31 de dezembro, os médicos joinvilenses já ficaram atentos. Em 10 de janeiro, no Hospital Dona Helena, onde Melo trabalha, reuniões de planejamento já começaram a ser feitas. Eles já imaginavam que o vírus poderia sim chegar à cidade.

A partir disso, foi preciso montar estratégias de atendimento para que o sistema de saúde não se sobrecarregasse. Foi pensando assim que o Centro de Triagem da Tupy surgiu. A ideia é de que hospitais recebam somente os casos necessários.

No momento, o Centro de Triagem tem recebido cerca de 40 a 50 pacientes por dia. O médico explica que eles esperavam uma procura maior e que estão aptos a atender por volta de 150 pacientes por hora.

Anteriormente, exames da covid-19 não estavam sendo realizados no local. Porém, recentemente, a Acij e Fiesc realizaram a doação de 400 testes para o Centro de Triagem, que vai começar a realizar o procedimento.

Acij/Divulgação

A dengue, por exemplo, também tem aumentado no município. De acordo com o boletim publicado quarta-feira, 29, pela Prefeitura de Joinville, são 1.202 casos confirmados neste ano.

Melo alerta que as pessoas precisam se cuidar porque se tiver muitos pacientes que precisem buscar atendimento no hospital, isso também será uma agravante para o sistema de saúde da cidade. Ainda assim, o infectologista afirma que não dá para comparar as duas doenças.

“Nunca na história da ciência moderna aconteceu que o mundo parou, então quem faz esse tipo de pensamento [comparar as duas doenças], faz um pensamento totalmente incorreto. É dizer que ele está certo e o mundo inteiro está errado em tomar essas medidas. Nós estamos entrando no segundo mês de covid-19 em Joinville e nós estamos nessa situação bastante complexa”, alerta.

Por isso, o médico defende a necessidade dos cuidados e a responsabilidade social de não contaminar outras pessoas, o que evita o contágio, a sobrecarga no SUS e em hospitais particulares, o que pode prejudicar o atendimento.

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