Lara Donnola/O Município Joinville
Paraenses transformam saudade em negócio em Joinville: “culinária rica e forte”
A migração paraense impulsionou novos negócios e sabores em Joinville
Joinville se consolidou, ao longo da sua história, como um destino de migrantes vindos de diferentes regiões do Brasil. Tradicionalmente, a cidade recebeu moradores do Paraná, Rio Grande do Sul e São Paulo. Contudo, os dados do Censo 2022 do IBGE mostram um crescimento expressivo da migração de outros estados do Brasil, com destaque para o Pará, que de 2010 para 2022 recebeu mais de 12 mil pessoas. Esse movimento impactou o comércio da cidade, trazendo novos temperos, cores e aromas para as mesas joinvilenses.
A culinária paraense, uma das mais ricas do Brasil, começou a ganhar espaço em Joinville com estabelecimentos abertos por migrantes que decidiram transformar a saudade em negócio. Entre as casas que hoje representam o Norte na cidade estão: Delícias do Pará , Sabores do Norte e Pará Joinville. Todas surgiram da necessidade de suprir a falta de ingredientes típicos e acabaram encontrando também um público catarinense cada vez mais curioso pelos sabores amazônicos.
Do Pará para Joinville, “uma terra de oportunidades”
Natural de Moju, no Pará, Rafaela Meireles, de 32 anos, chegou a Joinville em 2019. Junto com sua família, ela deixou a terra natal em busca de melhores condições de trabalho. A ideia de abrir o Delícias do Pará surgiu logo após a mudança. Ela percebeu a escassez de produtos típicos, como açaí e camarão, e viu nisso uma oportunidade.
Como sempre gostou da área de vendas e do contato com pessoas, Rafaela propôs ao marido que abrissem uma loja paraense. O objetivo inicial era matar a saudade da culinária da região e, ao mesmo tempo, oferecer os sabores do Norte para quem também sentia falta de casa. Ela começou com a loja e restaurante Pará Joinville. Mas vendeu o estabelecimento e inaugurou a loja Delícias do Pará recentemente, no Iririú.
Já o Pará Joinville, no Aventureiro, é hoje comandado por Mayara Menezes e José Antônio Menezes, de Capanema, interior do Pará. O casal também decidiu se mudar pela falta de perspectivas no estado de origem, e trouxe a experiência acumulada em um restaurante sazonal à beira de um igarapé.
No bairro Vila Nova, a casa paraense Sabores do Norte nasceu da iniciativa de Beatriz Regina Ribeiro da Silva, de 31 anos, natural de Bragança do Pará. Ela já havia morado em Joinville em 2013 e guardou a lembrança da cidade como uma “terra de oportunidades”. Foi essa memória que motivou a família a se mudar novamente para a maior cidade de Santa Catarina. “Joinville nos abraçou. Viemos atrás de melhorias, para viver, ter uma vida, e principalmente pelo futuro dos nossos filhos”, conta Beatriz.
Todas as empreendedoras relatam que a saudade da comida da terra natal e a escassez de produtos típicos do Pará em Joinville foi decisiva para iniciar os negócios. A ausência do açaí puro, das farinhas artesanais, dos peixes de rio e dos temperos paraenses abriu espaço para que transformassem a saudade da comida de infância em uma oportunidade.
As proprietárias contam que os paraenses são um povo muito ligado à família, e isso também se reflete na forma como os negócios são conduzidos. Nos estabelecimentos, o trabalho é conduzido em família. Elas contam com o apoio direto de esposos, irmãs e até dos filhos, que se dividem entre a cozinha e o atendimento ao público.
“Minha família inteira veio pra cá, minhas duas irmãs trabalham conosco, meu filho também, só meu pai ficou lá. Todos que trabalhamos aqui são da família, e pretendo empregar toda a família aqui dentro”, conta Beatriz.
A força da culinária paraense
A paraense Bia Armaud, que trabalha no marketing da Delícias do Pará e Pará Joinville, ressalta que a gastronomia paraense carrega traços indígenas marcantes, utilizando a mandioca como base.
Ingredientes como tucupi, jambu e maniva também são a base de pratos únicos, como o tacacá (caldo quente preparado com tucupi, goma de tapioca, jambu e camarão), o vatapá (feito com leite de coco e azeite de dendê), e a maniçoba, conhecida como “feijoada paraense”, feita com folhas de mandioca cozidas por dias para eliminar toxinas.
Essas receitas exigem técnicas ancestrais e um trabalho minucioso. “Nossa culinária é muito rica, tem muita concentração de sabor, muitas cores. É tudo natural, da terra”, resume Bia.
Entre as sobremesas paraenses, os locais comercializam creme de cupuaçu, bolo podre (de tapioca com coco), guaraná da Amazônia (milk-shake de guaraná), biscoito amanteigado Monteiro Lopes com recheio de cupuaçu, entre outras opções.
Em todos os estabelecimentos, o açaí é o carro-chefe das vendas. Entre os pratos típicos, o tacacá, o vatapá e a maniçoba também estão entre os mais procurados pelos clientes. As lojas também oferecem opções de farinhas vindas de diferentes localidades do Pará, cada uma com textura e preparo característicos.
A mais procurada é a farinha de Bragança lavada, conhecida pelo processo artesanal e trabalhoso que pode levar dias. “É a queridinha do pessoal, ninguém consegue ficar sem”, destaca Beatriz, do Sabores do Norte.
Entre os produtos comercializados, há ainda tucupi, camarão seco, pimenta-de-cheiro, a charque (carne bovina salgada e dessecada), carne bovina enlatada, xarope de guaraná, leite de coco, farinha de tapioca, e temperos do Pará, além de diversos tipos de feijões da região amazônica.
Encontro de culturas
Beatriz, Rafaela e Mayara destacam um ponto em comum: a curiosidade dos catarinenses. Segundo as proprietárias, toda semana famílias costumam buscar os restaurantes e lojas para conhecer a culinária paraense, muitas vezes incentivadas por recomendações de amigos que já experimentaram.
“A curiosidade pela nossa culinária é muito forte, pelo fato de ser muito diferente, saborosa, cheirosa. Graças a Deus a gente abraça muito, se abraça tanto o público paraense quanto o joinvilense. É pra todo mundo saborear”, ressalta Rafaela Meireles.
“Sempre vem gente, toda semana, quase todos os dias vem catarinenses curiosos para saber como funciona, conhecer nossa culinária, e a gente explica. A curiosidade pelos sabores e os cheiros traz eles porque a nossa culinária é forte. Eles amam e voltam sempre”, diz Rafaela.
Para quem chega com curiosidade, os restaurantes Sabores do Norte e Pará Joinville oferecem um menu degustação, reunindo pequenas porções dos pratos mais tradicionais.
Para conquistar o público local, Rafaela, dona do Delícias do Pará, teve a ideia de fazer o “Assadão do Pará”, realizado nos fins de semana, com frango, cupim e costela temperados com especiarias amazônicas. “Tudo com o nosso tempero paraense, que é o diferencial”, comenta. Ela explica que, embora a clientela paraense seja fiel, os maiores consumidores são os próprios joinvilenses. “O nosso maior público são os catarinenses. Eles se encantam com os sabores diferentes, experimentam e sempre voltam”, afirma.
Outra marca do Delícias do Pará e Pará Joinville é a venda de peixes de água doce, como tambaqui, mapará e dourada. A cliente Bia também destaca os produtos que carregam memórias de afetivas, como o salgadinho Hiléia. “É aquele gostinho de infância que eles trazem para cá, para matar a saudade”, menciona.
Bebidas alcoólicas paraenses
A loja Delícias do Pará oferece ainda uma variedade que vai além dos alimentos. Há bebidas como licores e cachaças de cupuaçu e jambu, acompanhadas de copinhos de cerâmica marajoara pintados à mão. “É uma ótima opção para presentear”, comenta a proprietária Rafaela.
Lara Donnola/O Município JoinvilleNa local também há um espaço dedicado exclusivamente às ervas medicinais e remédios naturais utilizados tradicionalmente no estado. Entre as opções, estão ervas para banhos, como boldo, unha-de-gato, espinheira-santa, aroeira, alecrim, cajá, uxi-amarelo e barbatimão.
Também são comercializados xaropes de jucá, cupim, limão e alho, além de produtos voltados para cuidados com a saúde da mulher, asma, secreções e tosse, e óleos anti-inflamatórios, como os de andiroba e copaíba. “Na área da mulher, prezamos muito pela naturalidade. Isso vem dos nossos povos indígenas, nossas plantas e receitas medicinais, chás e banhos. E é muito bom”, destaca Bia.
As farofas temperadas são um dos itens preferidos dos catarinenses, segundo Rafaela. “É uma farofa que também os catarinenses amam, não tem nenhum que tenha levado e não tenha gostado. Ela abraçou a cultura e a cultura abraçou ela”, informa a proprietária.
Desafios
As três proprietárias apontam a logística como o maior desafio para tocar o negócio, pois trazer produtos do Pará até Joinville exige viagens longas, custos elevados e confiança em fornecedores. Além disso, todas enfrentaram as incertezas do início, com divulgação limitada e adaptação financeira, superadas com muito esforço e apoio da família, segundo elas.
Os produtos não perecíveis chegam de ônibus em viagens de três dias, algumas vezes também são trazidos por familiares das proprietárias. Mayara, proprietária do Pará Joinville destaca que as mercadorias chegam de madrugada. “Às vezes recebemos carga às duas da manhã, outras vezes às cinco. É cansativo, mas estamos aí”, relata.
Apesar dos obstáculos, as empreendedoras reforçam que abrir negócios em Joinville significou um recomeço de vida. Todas vieram em busca de trabalho, enfrentaram dificuldades de adaptação e logística, mas encontraram acolhimento e hoje prosperam em seus negócios.
As histórias mostram que a culinária do Norte não está apenas matando a saudade de quem veio de longe, mas também conquistando espaço e ganhando o carinho dos joinvilenses. A força da culinária do Norte, cheia de personalidade, riqueza de sabores, cores e ingredientes, agrega à Joinville, cada vez mais, a diversidade cultural brasileira.
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